Thursday, June 16, 2005

Ressuscitando das cinzas

Editorial
HABEMUS ZINE

Duas cabeças pensam melhor do que uma, e produzem ainda mais também. Isso é um fato que a FUCKOFFzine não poderia ignorar. Após anos sendo escrita e idealizada por uma única mente inquieta, ainda que diversos colaboradores tenham passado por aqui - alguns mais outros menos -, passamos a ter dois mentores. Isso não significa que as colaborações estejam descartadas, pelo contrário, continuam sendo de extrema importância para que possamos manter a essência deste fanzine: ser um canal aberto a todas as opiniões.

Uma das mentes é bem conhecida dos leitores da FUCKOFFzine, que completa seis anos em 2005 e passou por diversas fases. A outra alguns já tiveram a oportunidade de conhecer o emaranhado de suas idéias, e passarão a explorar ainda mais a partir de agora, com uma participação mais efetiva.

A primeira fase deste fanzine, logo na sua criação, tinha pretensões infantis de esfregar na cara de todos um radicalismo natural dos anos de conflitos e inquietude da adolescência. Com o passar do tempo essa característica transformou-se em ópio, levando à necessidade de uma abrangência maior, porém, não menos infantil. Criou-se a Catarse Descontrolada, uma fusão com a Manicômio Zine, que infelizmente, a mesma infantilidade e a preguiça fizeram com que apenas uma edição - ainda que uma das mais ácidas - daquilo que prometia ser uma hecatombe de fortes opiniões.

Depois, por problemas internos, a fusão foi desfeita, e voltou a ser ela mesma, contrariando a moda lançada pelas marcas de cerveja. A FUCKOFFzine nasceu agressiva, desafiadora, enfiando o dedo na cara de uma sociedade decadente e corrupta. Da mesma forma ela renasceu todas as vezes, sempre com a mesma pretensão ácida de opinar sobre todos os aspectos do mundo em que vivemos. Agora não poderia ser diferente em nada.

A Fênix da internet retoma suas atividades, com uma cara mais séria, linguagem um tanto refinada, características mais jornalísticas, sendo explorado o que há de melhor no jornalismo: opinião e transparência de idéias. Mas não apenas o "achismo", muito comum por aí, mas a informação em contraponto à todas as suas nuances. Nossa posição é clara, o errado leva pau, o certo ganha aplausos.

Apenas algumas coisas terão mudanças nessa nova fase. A primeira é a periodicidade, que passará a ser mensal - e dessa vez é sério mesmo -, e a qualidade está garantida. Esta medida foi tomada para que os dois assinantes desta possam ter tempo de conciliar seus diversos afazeres. A segunda é a fixação de algumas editorias, como política e cultura, artigos e colunas. Uma definição básica de todo meio de comunicação, que facilita a leitura e a compreensão de nossa hierarquização de idéias.

Como tem sido nos últimos anos, nada passará pelos olhos da FUCKOFFzine sem que receba algum comentário, ainda que ínfimo. Nem papas, nem políticos. Nem teatro, nem cinema. Ou sequer aquele papel jogado ao chão disfarçadamente. Tudo terá seu espaço, doa a quem doer.

Artigo
Uma verdadeira alternativa para o povo latino-americano

Rodrigo Herrero

Surge uma nova proposta de integração da América Latina, em oposição à submissão proposta pela Área de Livre Comércio das Américas (Alca), dos Estados Unidos. No final de abril, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, esteve em Cuba para firmar com o presidente cubano, Fidel Castro, 49 acordos de cooperação que marcam o início da implantação da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba).

O objetivo da Alba é ampliar a integração proposta pela Alca, fazendo com que os acordos não se limitem à área econômica, passando também a questões sociais e culturais, levando em consideração a solidariedade e o respeito à soberania das nações. Entre os acordos estabelecidos na reunião em Havana, estão a instalação de uma sede da PDVSA (empresa petroleira venezuelana) e do Banco Industrial da Venezuela, na capital cubana. É a primeira vez que um banco com capital inteiramente estrangeiro se instala na ilha. Em contrapartida, um banco de Cuba será criado na Venezuela.

O governo cubano também vai aumentar seu apoio à educação popular, com o objetivo de derrubar a zero o número de analfabetos na Venezuela, assim como é em Cuba. Na saúde, 30 mil médicos venezuelanos serão formados em Cuba, além deste governo prometer realizar 20 mil cirurgias em venezuelanos de baixa renda. Há acordos também nas áreas de transporte, desenvolvimento tecnológico, turismo, meio ambiente, produção agrícola, além da criação da TV Sul, uma rede continental de televisão.

Fim da Alca

Essas propostas, por si só, já excluem os EUA, que vêem a Alca ir para o vinagre a cada dia que passa, pois os movimentos sociais das Américas fazem a resistência necessária para impedir que esse mega-acordo saia do papel. Inclusive, janeiro deste ano a Alca era para estar em funcionamento, mas a pressão interna dos trabalhadores impediu esse disparate. Para contornar isso, os EUA têm buscado uma alternativa para explorar os mercados latinos, por meio dos Tratados de Livre Comércio (TLCs) Andino, da América Central e do Caribe, que são acordos bilaterais, em que os EUA negociam diretamente com cada país.

Alguns acordos já estão encaminhados, mesmo assim, há países que não conseguem ceder às pressões estadunidenses, pois a oposição em seu terreno os coloca numa saia justa de lascar. Claro, um acordo meramente comercial, em que um país pequeno e de economia frágil, como o Panamá, por exemplo, vai se beneficiar em quê em relação a uma potência como os EUA? Somente países como Colômbia, Peru, Chile, que possuem presidentes alinhados e financiados pelo Império aceitam esse tipo de acordo que beneficiam sua classe, deixando os trabalhadores na miséria.

Não é a toa que Washington viu com cautela essa reunião de um país em fase de revolução (Venezuela) e outro com uma revolução consumada há mais de 40 anos (Cuba). Através de seu Departamento de Estado, informou que vai continuar pressionando por sua ¿agenda positiva¿, ao colocar que esta possui um futuro democrático. A retórica estadunidense de que sua fórmula de Estado é democrática e deve ser a única a ser seguida chega a ser revoltante, por querer aviltar a soberania das nações seguindo seus próprios caminhos, optando por acordos solidários e não comerciais, em que os povos são beneficiados e não os empresários.

Resta torcer para que acordos como os de Cuba e Venezuela se proliferem nas Américas e que a Alba seja realmente uma alternativa, tomada pelos demais países que queiram se libertar do capital estrangeiro para ter em suas economias a fortaleza necessária para se tornarem independentes de quem sempre os usurpou.

Política
PV quer presidência em 2006


Thiago Vieira


O Partido Verde quer deixar de lado o estigma de nanico, que apenas acompanha os pesos pesados da política brasileira nas decisões e campanha eleitorais. A intenção, agora, é partir para o que muitos podem considerar ambicioso. Os verdinhos querem a presidência da República, iniciando esta busca já nas próximas eleições, em 2006. Porém, esta idéia parece não ser unanimidade dentro da legenda.

Mas, a proposta de uma candidatura própria no próximo ano, com certeza, será debatida nas reuniões nacionais do partido. Quem apóia essa pretensão não se intimida com os dois nomes pesados que estão no páreo na disputa presidencial: o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que ainda não confirma a candidatura, mas é o único nome tucano com força suficiente em dimensão nacional para a corrida ao cargo de chefe do Executivo do País.

A corrente em prol do PV na disputa direta ao posto mais cobiçado em nossa política é formada basicamente por diretórios municipais do partido, bem mais ambiciosos que a direção nacional. Como é o caso de Mogi das Cruzes (SP).

De acordo com o presidente do diretório municipal de Mogi das Cruzes do PV, Romildo Campello Filho, um dos militantes que irá defender a proposta nas reuniões da legenda, ao lado de seu diretor executivo, Eduardo Camargo Afonso - que também responde pelo posto de subprefeito de Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo -, o partido está crescendo e ganhando posições importantes, principalmente no legislativo, como na Câmara do Deputados, em Brasília e na Assembléia, em São Paulo.

"Temos ainda o prefeito de Leme, Interior do Estado, que assumiu, por conta da saída do titular do cargo, além dos cinco deputados estaduais em São Paulo e quatro deputados federais em Brasília. Este crescimento não pode ser ignorado", afirma Filho.

Para Afonso, o buraco é ainda mais embaixo. "O PV não pode mais ficar à sombra de outros partidos. Na capital paulista, estamos aliados ao PSDB, na esfera federal, não estamos concordando em tudo o que o governo petista vem fazendo. Está na hora de termos uma candidatura própria, para provar que podemos crescer ainda mais", declara.

Essa pretensão de uma candidatura em 2006 ganha mais força especulativa com a recente dissidência do partido na base aliada do governo, em Brasília. Com a desculpa de uma política ambiental deficitária do PT, os verdes comprovam que estão procurando se livrar das amarras do passado e partir para uma vida autônoma na política nacional, e possivelmente uma oposição à qualquer um que faça corpo mole na questão do meio ambiente.

Historicamente, o PV é um nanico que come pelas beiradas, e sabe fazê-lo muito bem. Nunca deixou de ter representantes na Assembléia Legislativa de São Paulo, ou no Congresso Nacional. Seus adeptos são na maioria jovens - parcela da população que mais se mobiliza nas causas ambientais do País e do mundo.

O crescimento do partido como um todo, pode ser comprovado com uma amostra do que ocorre em Mogi das Cruzes. Com 200 filiados, a legenda agrega forças políticas da Cidade, como a terceira colocada nas últimas eleições municipais na disputa pela Prefeitura, Thamara Caroline Strelec, que em maio deixou o PPS para abrigar-se sob as asas verdes do PV. ¿Saí de um partido que acreditava nas questões ambientais, para integrar uma legenda que não só acredita, mas também milita nas mesmas questões¿, diz.

Ela também acredita no crescimento do partido que, numa cidade em que a ala esquerdista tem força ínfima, demonstra sinais de amadurecimento. Ainda este mês, o diretório municipal de Mogi das Cruzes fará um recadastramento de seus filiados. "Só queremos no PV aqueles que realmente atuam no partido", afirma Filho.

Ao PV, um partido simpático a todos, vencer as eleições de 2006 ainda é impossível, assim como alcançar a Prefeitura de São Paulo foi inviável para Marcos Penna, seu candidato em 2004. Mas a iniciativa ajudará o partido a formar nomes fortes para o futuro. Porém, é difícil que o partido caia na banalidade de outras legendas como o PSTU, que se tornou um partido que grita e ninguém ouve, que mostra e ninguém vê. Crescimento planejado e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Cultura
Amadorismo ou incompetência?


Rodrigo Herrero


O teatro amador é uma das formas mais interessantes de expressar a arte. É nele que existe maior liberdade para o texto, para a idéia, pois ainda não foi atingida (o verbo é esse mesmo) por um grande patrocínio que injeta grana, mas retira espaço para a arte cumprir seu papel, seja social ou meramente criativo.

Porém, as pessoas confundem o amadorismo, referindo-se àquele que ama o que faz, com o amadorismo de amadores, de pessoas que fazem de qualquer jeito, que não pensam no resultado final e desejam tirar algum proveito do circo armado, seja em cooptar pessoas a seus interesses ou somente aparecer. Se na vida isso é normal, o que dizer na arte...

Esse segundo sentido eu pude presenciar recentemente numa companhia de teatro, que prefiro não citar o nome para não prejudicar as pessoas boas que devem existir em seu meio. Sou jornalista e colaboro para o site de cultura pop Rabisco. Foi de lá que recebi um release de um "assessor de imprensa" sobre uma peça infantil que re-estreava em São Paulo, depois de "muito sucesso" anos antes. Me empolguei e entrei em contato, para assistir a re-estréia do espetáculo e entrevistar os atores.

Tudo combinado. No dia marcado eu compareci, com um amigo, já que íamos para outro compromisso após o final da apresentação. O horário para o início era às 16h00. Chegamos lá poucos minutos antes do início previsto, o que nos deixou preocupado, fora o barulho intenso de um teste de som que estava sendo feito na rua em frente, para uma festa do Dia do Trabalho. Mas, chegando lá, senti que aquilo era uma verdadeira ¿fria¿. Havia apenas uma senhora com duas crianças, além de uma mulher na bilheteria, um rapaz na porta recolhendo os ingressos, fora algumas pessoas do apoio que corriam de um lado para o outro.

Comecei a estranhar tudo aquilo: cada pessoa que chegava um cumprimento era direcionado pela mulher da bilheteria, evidenciando que o público seria composto somente por familiares e amigos. Os minutos corriam e a apreensão tomou conta, pois nosso outro compromisso era às 18h00 e, mesmo com a peça com previsão de uma hora de duração, já eram 16h30 e não daria tempo de nos deslocarmos até o outro local. Foi quando a mulher da bilheteria informou a todos que a estréia não seria mais realizada naquele dia, passando para a semana seguinte, ocorrendo, em seu lugar, uma espécie de ensaio-geral, pois o barulho vindo de fora estava atrapalhando o acerto do som dentro do teatro.

Mas, oras, todo mundo sabe que todo ano, naquele local, há o festejo mencionado e que, para um evento de tal magnitude, o som seria testado um dia antes. Por que, então, não estrear em outro dia, que pouparia tal fiasco? Além disso, faltou divulgação da peça, pois parecia uma apresentação escolar, que vão prestigiar apenas os parentes das crianças.

O desprezo ao zelo e o conseqüente desrespeito ao público indicam que o grau de amadorismo em certos trabalhos não chega a ser uma mostra positiva daquilo que está sendo feito, pois o amadorismo de quem ama o que desenvolve, faz de tudo para ver sua empreitada funcionar, mesmo que dentro de suas possibilidades. Amadorismo e incompetência são coisas totalmente diferentes.

Coluna Vertical
Não somos todos tão iguais nessas noites...

Thiago Vieira

Recebi, dias atrás, um e-mail de um grande amigo, que se encerrava com a frase "somos todos iguais nessas noites". O desfecho de seu texto nostálgico referia-se àquelas músicas que nos marcaram na juventude e, até hoje, quando as ouvimos na rádio movemos céus e terras para que ninguém tire da maldita estação, sendo que isso só ocorre porque elas nos remetem àqueles tempos em que tudo era "mais fácil".

Em seu texto, titulado como "A minha versão da história", ele me surpreendeu, concordei em alguns pontos, e discordei em outros. Ele narrava nostalgicamente - como já disse - a história de uma turma de amigos da qual ainda considero fazer parte e que, ao passar do tempo, acabou por se dispersar, por motivos diversos - uns muito fortes, outros totalmente banais.

A sua "versão da história" inicia com o primeiro ano do colegial para todos nós, em 1998, e o que me impressionou bastante foram os contrapontos que traça com a realidade fora dessa turma, como a hecatombe da telefonia celular no final dos anos 90, e narra como éramos alheios às mudanças do mundo, da política, etc.
"Éramos românticos". Sim, realmente, éramos muito românticos, com os sentimentos à flor da pele - de forma até acentuada próximo ao nível de sentimentalismo que se encontra nos adolescentes "normais", digo isso porque tínhamos algo de especial, nossa união era até alvo de invejas. Concordei com ele em todos os momentos em que exaltou a proximidade que tínhamos, apesar de morarmos a distâncias consideráveis uns dos outros. Concordei com ele sempre que apontou - subjetivamente - os motivos das seguidas "baixas" que a turma foi sofrendo.

Reservo este parágrafo para colocar a minha parcela de culpa nesta dolorosa separação. Não explicarei e nem citarei meus motivos, porque estes já estão gastos de tanto serem expostos, mas faço - assim como ele - a minha meia-culpa, admitindo que meu erro, uma traição sim, contribuiu bastante para a já desgastada relação que tínhamos em 2003. Uma traição, como já vi muitas nesta mesma turma, mas isso não vem ao caso.
Ainda concordei com ele, quando citou a nossa indiferença ao mundo à nossa volta, numa cegueira branca de alienação, de uma adolescência levada "na gaita" - despreocupada, mas que aprendemos no colégio, a ETE Carlos de Campos, a sermos cidadãos e alguns de nós aprendemos a ser críticos -, ou por mera pretensão de que um rei nasceria de nossa amizade. Ele apontou isso ao mencionar a chegada de uma pessoa da classe operária à presidência do País.

Ele comentou a descoberta, de alguns, dos problemas sociais e como o assistencialismo lhes tem ajudado a colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranqüilamente - como se aquele pequeno ato, repetido de tempos em tempos, fosse o suficiente. Para fazer um apanhando geral do texto desse grande amigo, cheguei a conclusão que ele lamenta as separações, as formações de pequenos grupos - algo natural -, as desavenças, e tudo mais, e senti uma esperança de que tudo aquilo retorne.

Porém, discordo dele em outros pontos, em especial quando cita com tristeza as separações e aborda as desavenças com certa surpresa. Em parte, os rachas que tivemos na turma serviram para que deixássemos a cegueira branca da alienação e passássemos para uma fase de lucidez. Ao sairmos das "trevas", deixamos de representar uma juventude despreocupada, surgiram as discordâncias de ideologia, mas não sabíamos lidar com elas num ambiente em que nunca houvera desavenças sérias.

Os poucos que se tornaram críticos perceberam o tamanho do mundo fora dos membros da turma, e naturalmente procuraram relações exteriores. Mas não percebemos que isso nos faria dividir o tempo entre a turma, as responsabilidades e as outras relações. Isso desgastou algumas relações em nosso grupo - tornou-se comum mágoas banais por escolhas feitas.

Os encontros foram minguando, quando um grupo podia, a reunião era realizada. "Nós avisamos, vieram os que quiseram vir", era uma das frases que mais se ouvia. Essa frieza eu não questiono por mim, pois eu realmente só ia nos encontros que eu queria, mas por outros membros, que por diversas vezes ouvi desabafos sobre as quedas de temperatura na turma.

As brigas, desavenças, confrontos de idéias, e até a mudança de ideais que muitos tiveram. Nada disso seria surpresa se tivéssemos consciência de que existia um mundo fora do colégio, se tivéssemos acordado para a realidade que não víamos nas ruas do Brás, ou se ao menos não tivéssemos nos fechado em nós mesmos, achando que isso seria suficiente para uma amizade eterna.

Ao meu ver, tudo o que ocorreu e ainda ocorre nessa turma tem, teve e terá pontos positivos. Acordamos para uma realidade que não queríamos ver e nos separamos porque não soubemos lidar com as nossas próprias diferenças, e isso aconteceu porque não nos conhecíamos como achávamos. Também vejo com certo pesar ao que os fatos nos levaram, como a impessoalidade da internet e a não comunicação em sua plena era. Mas vejo com bons olhos as mudanças que alguns de nós tivemos, como o crescimento pessoal de cada um, a abertura de novos horizontes.

As mudanças são normais e necessárias, como meu amigo, que quando o conheci era um dos católicos mais fervorosos, com quem até tive algumas discussões sobre religião, e que descobri em seu e-mail que passou a ser ateu em algum ponto de sua vida. Isso deve ter chocado algumas pessoas, mas se eu também não fosse ateu, ele continuaria sendo quem sempre me pareceu ser, um amigo acima de tudo.

Coluna Verborrágica
Que democracia é essa?

Rodrigo Herrero

Dia desses, estava eu na porta da produtora que trabalho, aguardando chegar algum funcionário para abrir o portão da casa e eu iniciar mais um dia de mais-valia relativa (pois a absoluta eu decidi não fazer mais), e, enquanto isso, fiquei a papear com o vigia da rua (já que o bairro é residencial, de classe média-alta, na zona sul de São Paulo), conhecido por todos como Zequinha. Homem de seus 30 e tantos anos, com o sotaque a mostrar sua "nordestinidade". Fala tranqüila, sorriso sempre na face, é um daqueles seres pacatos que só costumamos ver no interior paulista, o tão famoso caipira.

Enquanto fritávamos ao Sol das 8 da manhã, entramos numa conversa que fugiu do habitual cumprimento e futilidades, passando para algo mais sério. Começamos a falar de aluguel, pois uma casa vizinha ao meu trabalho está vazia há 8 meses e eu perguntei a ele porque os donos não a vendiam. Detalhe: o aluguel da casa é R$ 1.400,00. Daí, eu comecei a questionar também porque uma pessoa que se presta a pagar um valor desses não compra duma vez: "Quem tem esse dinheiro para pagar aluguel pode comprar uma casa né?", indagava mansamente Zequinha.

Foi aí que a conversa tomou um rumo interessante: Zequinha falou que para quem é pobre a compra de uma casa é muito mais difícil, pois "para você financiar uma casa na Caixa Econômica é uma democracia danada". Sim, para quem não percebeu ou achou um erro de digitação do colunista, trocando "burocracia" por "democracia", Zequinha falou mesmo a palavra "democracia". Eu comecei a rir, mas não pela suposta ignorância do vigia e sim pela absurda verdade que Zequinha mostrava a mim naquele instante.

O raciocínio é muito óbvio: que "democracia" é essa que exige diversas atribuições para um trabalhador pobre que não tem posses, nem meios de produzir lucro para obtê-las, a não ser seu salário-escravidão que lhe permite apenas comer e pôr no mundo mão-de-obra (seus filhos) para um futuro idêntico ao seu? Que "democracia" é essa que exige que a pessoa tenha tantos anos de trabalho numa mesma empresa, se, com a lógica neoliberal, essas empresas pratiquem hoje uma rotatividade monstro de seus funcionários, tudo para cortar custos de rescisão e Fundo de Garantia? Que "democracia" é essa que, no capítulo 2 da Constituição Federal, a seção Direitos Sociais diz que todo cidadão brasileiro tem direito à moradia, mas em 2000 foi estimado em 6 milhões o déficit habitacional, segundo informações do Fórum Nacional de Reforma Urbana?

É simples, como nos mostra o próprio Zequinha, em seu exemplo de como um amigo conseguiu uma casa própria, pois ele mesmo ainda vive de aluguel: "Ele só comprou porque trabalhou muitos anos numa empresa e o patrão dele praticamente comprou a casa, pois como ele, o dono tem empresa, o financiamento sai mais fácil", disse.

Para Zequinha, a única opção que resta é o CDHU, pois uma conhecida dele está vendendo dois apartamentos em regiões inóspitas da periferia paulistana. "Mas você sabe como é né, CDHU é um pessoal bastante pobre. Mas tem muita gente boa", justifica o vigia com cara desconfiada, esquecendo sua condição paupérrima, como todos os brasileiros costumam fazer, pois eles não enxergam e tem vergonha de enxergar que a miserabilidade está á sua porta. E assim Zequinha seguiu sua ronda pela rua e eu iniciei minha mais-valia relativa.

Ponto de vista

Quem precisa de Veja?

Gilberto Maringoni (*) - Texto publicado em BRASIL DE FATO, em Abril de 2005

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, está atravessado na garganta da revista Veja. Os motivos são basicamente dois. Um é - chamemos as coisas pelos nomes - ideológico. Veja soma-se ao ódio profundo - pelos nomes, pelos nomes! - classista, racista e político devotado ao mandatário venezuelano pela mídia de seu país, que o sataniza a ponto de concluir tratar-se de um débil mental. A pauta é ditada pela imprensa estadunidense mais conservadora, tendo o Washington Post à frente. Veja acha que Chávez não é democrático. Até aí, é um direito de quem manda na publicação.

Estragou uma capa
Mas o ódio da Veja tem por base um outro elemento mais concreto. Chávez estragou uma capa que deve ter dado muita satisfação à alta direção da empresa da família Civita. Recordemos a chamada de capa do número 1.747, datada de 17 de abril de 2002. A edição fechava na noite de sexta-feira, 12 de abril.

Menos de 20 horas antes, a oposição de Chávez - composta por membros do empresariado, em aliança com o alto comando das forças armadas, setores da burocracia petroleira e a Casa Branca - consumara um golpe que o retirara do palácio de Miraflores, acabando com as instituições democráticas do país. Veja não teve dúvidas. Sapecou na capa a chamada: "A queda do presidente fanfarrão". Na página 45, Veja sentenciava:

"Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco-país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%". Todos sabem o resto da história. Quando chegou às bancas, na manhã de domingo, a edição estava para lá de velha. Milhões de venezuelanos nas ruas e uma inédita divisão do Exército abortaram o golpe. A Veja sequer pediu desculpas aos leitores pela barriga, na semana seguinte.

Agora, a Veja volta à carga na edição desta semana, aliás, primorosa no que revela de sua linha editorial. A capa é eloqüente: "Quem precisa de um novo Fidel?" Encimada pela expressão carrancuda do líder venezuelano, a manchete logo emenda: "Com milícias, censura, intervenção em países vizinhos e briga com os EUA, Hugo Chávez está fazendo da Venezuela uma nova Cuba".

Condinha paz e amor
A entrevista das páginas amarelas é com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. O tom é todo Condinha paz e amor, como se vê pelo trecho seguinte: "Mesmo quando a missão inclui assuntos mais comezinhos, como as encrencas de Hugo Chávez na Venezuela e as hesitações brasileiras na Alca, Condi tem se saído extraordinariamente bem na Operação Simpatia. (...) Pianista, especialista em relações internacionais e fluente em russo, chegou a reitora de Stanford e, embora negue quase que diariamente, o caminho da Casa Branca é uma possibilidade no horizonte".

Não há encrencas com Hugo Chávez, mas encrencas de Hugo Chaves, de acordo com o olho da entrevista. O pingue-pongue pauta a edição. Mas a grande arte está lá no meio da revista, sob o espirituoso título: "O clone do totalitarismo". Em seis páginas ficamos sabendo, entre outras coisas, o que se segue. Alguns comentários são colocados abaixo de cada trecho.

"Chávez dá dinheiro e apoio político e técnico para movimentos de esquerda latino-americanos". Sequer a CIA consegue levantar uma única evidência de que tal fato esteja ocorrendo. "Venezuela substituiu a União Soviética como patrocinadora do regime castrista em Cuba, fornecendo petróleo e abastecendo o país de bens de consumo industrializados, tudo a preço simbólico ou a fundo perdido".

Não há preço simbólico ou fundo perdido. Há um acordo, firmado em 30 de outubro de 2000, pelo qual a Venezuela fornece a Cuba 53 milhões de barris diários de petróleo - metade do que a Ilha consome - a preços de mercado, com prazo de carência de até 15 anos. Além de pagar, Cuba compensa as condições de financiamento mediante o fornecimento de serviços médicos, educacionais e esportivos, além de remédios, vacina e açúcar. A íntegra do acordo pode ser lida em: http://www.asambleanacional.gov.ve/ns2/leyes.asp?id=175. Seria bom aos elementos responsáveis pelos textos de Veja darem uma lida antes de mentirem aos seus leitores.

"Ele diz a toda hora que os americanos querem mata-lo ou estão prontos para invadir o país. Até agora, de real, o que se viu foi o governo de George W. Bush evitar respostas ás provocações". Até agora o que de real se viu foi o governo Bush patrocinar, entre outras coisas, um golpe de Estado. Uma recomendação aos redatores de Veja: encomendem o recém-lançado livro El código Chávez - decifrando la intervención de los EE. UU. em Venezuela, da advogada estadunidense Eva Golinger (Fondo Editorial Question, 336 páginas). O volume é resultado de uma exaustiva garimpagem em documentos oficiais do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa, obtidos sob o amparo da Lei de Liberdade de Informação (Freedom Infromation Act).

Em suas página, a autora desvenda - com fartas provas e evidências - as relações entre a entidade conhecida por National Endowment for Democracy (NED) e a oposição venezuelana, incluindo fornecimento de dinheiro e uso de chantagem política e estímulo à violência. É ressaltado ali que o embaixador estadunidense, Charles Shapiro, foi o primeiro a se reunir com o líder do golpe de 2002, Pedro Carmona. E, entre muito mais, o livro detalha - com os números de matrícula - as embarcações e aviões dos EUA que entraram em águas territoriais venezuelanas, sem autorização, durante o golpe.

A matéria tem muito mais. É impossível dizer onde está a pior parte. É um panfleto, bem ao gosto do que faz na Venezuela a imprensa local. Como ela, Veja não trafega pelos caminhos do apego à realidade. Sua matéria-prima é a ficção e a lorota pura e simples. É parte do novo coro golpista que se avoluma contra um governo democraticamente eleito, tendo como repetidores outros órgãos da imprensa brasileira.

Que os Civita façam isso, é papel deles. Mais uma vez - chamando as coisas pelo nome - é papel de sua classe social. A matéria é assinada por Diogo Schelp, Ruth Costa e José Eduardo Barella. São contratados e fazem o que o patrão manda. Servir bem para servir sempre, parece ser o lema. Talvez acreditem no que escrevam. Mas não deixa de ser deprimente a existência de gente que tope assinar uma peça totalmente editorializada e anti-jornalística, apenas para manter seus proventos no fim do mês. É certo que a vida anda difícil, mas tem um pessoal que pega pesado.

*Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Agência Carta Maior, é autor de A Venezuela que se inventa - poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Fundação Perseu Abramo) e observador, a convite do CNE, no processo do referendo revogatório na Venezuela.

3 Comments:

Blogger Dani said...

Amigos, fico feliz e nada surpresa em ler a zine...nada surpresa pq sabia que as mentes ultraprodutivas desses meus dois amigos só poderiam fazer algo bom ...e profundo. Lindo texto sobre a amizade, Black, lindo mesmo (a parte da cegueira branca me fez lembrar aquele escritor, brilhante, brilhante mesmo que vcs sabem que eu amo)
Tenho dois pedidos, no entanto: ajudem a amiga relapsa de vocês a lembrar - no meio do tumulto - de entrar na zine t-o-d-o-s o-s m-e-s-e-s, mandem o aviso que ela está no ar para meu e-mail. O segundo, e pode ser que o pessoal discorde de mim, o blog está lindo, mas o fundo preto com as letras brancas embaralham um pouco a visão. Quando volto a olhar pra tela normal- ou seja, quando saio do blog - fico vendo as linhas no monitor...heheh...só um pitaco desta amiga intrometida.
Amigos, parabéns! Tenho orgulho de vcs...
Dani

9:00 AM  
Blogger sidneisolon said...

Salve Caros Amigos...
Nao li nada ainda aqui mas pelo que mandaram no e-mail e do pouco que conheco do Herrero sei que não é menos que bom, critico e saudável.
Tudo de bom.

6:58 PM  
Blogger Shirley said...

Que delícia ler os textos de vocês!
Muito saborosos mesmo, falam de coisas sérias, mas falam também da vida de um jeito que dá vontade de não parar de ler! Espero que consigam levar esse "zine" adiante, pro bem de algumas almas que viraram fãs!
Parabéns!

11:23 AM  

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